Corte de gastos: Lira diz que governo ‘não tem votos’, mas Câmara deve votar urgência dos projetos nesta quarta
Corte de gastos: Lira diz que governo 'não tem votos', mas Câmara deve votar urgência dos projetos nesta quarta
Presidente da Câmara diz que impasse sobre emendas gerou 'intranquilidade' na negociação política. Governo quer aprovar pacote ainda este ano para enviar sinal ao mercado.
Por Kevin Lima, g1 — Brasília
O presidente
da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), afirmou nesta quarta-feira (4) que a base
aliada do governo Luiz Inácio Lula da Silva não tem votos suficientes na Casa,
atualmente, nem para aprovar o regime de urgência para os projetos do pacote de
corte de gastos.
O governo enviou os textos ao Congresso na última semana e conta com a aprovação das propostas ainda este ano para enviar uma sinalização de responsabilidade fiscal ao mercado.
Para isso,
no entanto, será preciso aprovar o chamado “regime de urgência” – um
rito acelerado para os textos, que seriam votados diretamente no plenário da
Câmara sem passar pelas comissões.
🔎 Para aprová-lo, o plenário da Câmara
precisa atingir a chamada maioria absoluta. Ou seja: no mínimo, 257 votos —
mesmo quórum necessário para aprovação de um projeto de lei complementar.
Os pedidos
de urgência chegaram a ser incluídos na pauta de terça (3). Mas a análise
acabou adiada diante da insatisfação de parlamentares com a decisão do ministro
Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que estabeleceu novas regras
para a retomada do pagamento de emendas.
Nos
bastidores, deputados avaliam que a decisão de Dino — confirmada, por
unanimidade, pelo plenário do STF — foi mais rígida do que a lei aprovada pelo
Congresso e sancionada pelo presidente Lula para moralizar as emendas
parlamentares.
Essa
postura, segundo Lira, tornou o cenário de aprovação dos projetos — e até mesmo
das urgências — mais turvo.
“Hoje,
o governo não tem votos sequer para aprovar as urgências dos PLs. A PEC, eu
coloquei na CCJ [Comissão de Constituição e Justiça], pedi para ser extrapauta
e foi retirado — a pedido do governo —, porque acho que não tinha a certeza de
ter os mínimos votos para aprovar a admissibilidade da PEC na CCJ”,
afirmou o deputado em evento do portal “Jota”.
“[É] um
momento de muita instabilidade, de muita ansiedade, de muita turbulência
interna, por causa desses acontecimentos que não são inerentes ao convívio
harmônico, constitucional, de limites entre os Poderes, principalmente nas suas
circunscrições do que pode ou não fazer. Você nunca vai ver um deputado
julgando alguém, ou condenando alguém num tribunal, como também não deve ver
nunca um juiz legislando”, acrescentou.
O presidente
da Câmara afirmou que, embora haja turbulências na negociação política,
colocará os pedidos de tramitação acelerada em votação nesta quarta (4).
Lira disse
não ter “dúvida” de que o Congresso “não vai faltar” ao seu
papel de analisar, discutir e votar as propostas.
O deputado afirmou que está “trabalhando” para que os requerimentos conquistem os votos necessários. E que as negociações para concluir a análise do pacote devem se estender pelas próximas semanas.
Na área
jurídica, a Advocacia-Geral da União (AGU) já entrou em campo para tentar
alinhar a decisão de Flávio Dino aos anseios do Congresso.
Em pedido
protocolado na terça (3), o órgão solicitou ao ministro a reconsideração de
trechos da decisão que, para Executivo e Legislativo, ultrapassam a lei
sancionada por Lula para pacificar o tema.
“Temos
que tratar esse assunto [corte de gastos] com seriedade, o que não está sendo
fácil. Porque tem muitas variáveis, que estão acontecendo, que não dependem só
da vontade do Congresso, que não estão ajudando no encaminhamento de
sensibilidade política desse momento”, declarou Arthur Lira.
Corte de
gastos
As propostas
enviadas pelo governo — um projeto de lei, um projeto de lei complementar e uma
Proposta de Emenda à Constituição (PEC) — incluem ajustes orçamentários que
buscam equilibrar as contas públicas, impactando áreas como aposentadorias e
salário mínimo.
Com as
medidas, o Planalto prevê economizar R$ 375 bilhões até 2030.
A recepção
aos projetos, anunciados na última semana pela equipe de Fernando Haddad, já
não havia sido satisfatória em diversos setores do Congresso — grande parte
influenciada pelo anúncio de uma reforma no Imposto de Renda.
E o cenário
político, que já estava agitado pelas demonstrações do mercado financeiro,
ficou ainda mais bagunçado com as determinações de Dino desta semana.
O Congresso
esperava que as novas regras para emendas, sancionada por Lula, fossem
suficiente para que Flávio Dino liberasse o envio dos recursos indicados pelos
políticos.
Não foi o
que ocorreu. Na avaliação de deputados e senadores, o ministro
“ignorou” balizas definidas pela nova lei e estabeleceu inovações em
relação ao texto. Como resultado, a insatisfação atingiu, em cheio, o debate
sobre as propostas de corte de gastos.
Além do
adiamento da votação das urgências na sessão de terça, nesta manhã, o governo
decidiu pedir a retirada de pauta, na CCJ, da PEC enviada pelo governo.
🔎 O rito de análise de PECs na Câmara
estabelece a CCJ como primeiro passo. É o órgão que dá aval — ou não — à
proposta e encaminha a PEC a uma comissão especial, que discute e propõe
mudanças ao texto. Somente depois disso, a iniciativa vai ao plenário.
PEC deve
ser ‘apensada’ a texto anterior
Arthur Lira
também disse buscar uma outra saída para a PEC do Planalto.
Segundo ele,
ainda hoje, a proposta poderá ser anexada a um outro texto mais avançado na
Casa, o que permitirá que a PEC não passe pela CCJ nem por uma comissão
especial.
“Como
eu disse, a PEC enviei para a CCJ, para minimamente cumprir o rito. Tive uma
conversa com a presidente, que foi muito solícita e botou no extrapauta. Mas
logo o próprio governo pediu para retirar extrapauta. O que deve acontecer com
a PEC é que vou procurar uma que tenha compatibilidade, a exemplo do que já foi
feito anteriormente, de jurisprudência da Casa, com instruções que permitam
apensá-la a uma PEC pronta para plenário”, disse Lira.
De acordo
com ele, somente depois disso, será definido o relator da proposta, que, entre
outras coisas, altera regras para o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e
abono salarial.
“Essa
providência [do apensamento] deverei estar tomando agora de tarde, na minha
volta pra Câmara. Mas, ainda assim, repisando aqui que nós temos que ter muito
diálogo para vencer esses assuntos nas próximas duas semanas”, completou.
Até o fim
do ano
Apesar das
“turbulências”, Arthur Lira avaliou que é preciso aprovar, ainda
neste ano, as medidas enviadas pelo governo federal para ajustar as contas
públicas. A expectativa é a mesma no Palácio do Planalto.
Para Lira,
as regras precisam ser contempladas nas leis orçamentárias de 2025.
“As
medidas, ao meu, ver precisam ser votadas nestas três semanas porque ainda
temos o Orçamento [de 2025] para entregar até o final do ano, que precisa estar
enquadrado nesses cortes. Chamamos de cortes, mas é uma diminuição na
velocidade do crescimento das despesas”, afirmou.
Segundo o presidente da Câmara, o governo também está “empenhado” em fazer avançar as propostas.
“Vamos
conseguir nessa semana, na outra, vamos dialogando. O governo está empenhado, o
próprio presidente Lula deve estar preocupado com essa situação”,
destacou.