Dólar sobe e volta a fechar a R$ 6, com alta da Selic e exterior no radar; Ibovespa tem forte queda

Dólar sobe e volta a fechar a R$ 6, com alta da Selic e exterior no radar; Ibovespa tem forte queda

A moeda norte-americana avançou 0,69%, cotada a R$ 6,0091. O principal índice acionário da bolsa de valores brasileira recuou 2,74%, aos 126.042 pontos, na maior queda diária em quase dois anos.

Por Redação g1 — São Paulo

O dólar fechou em alta e voltou ao patamar de R$ 6 nesta quinta-feira (12). Já o Ibovespa, principal índice acionário da bolsa de valores brasileira, recuou 2,7%, na maior queda diária em quase dois anos.

Conforme levantamento de Einar Rivero, sócio-fundador da Elos Ayta Consultoria, essa foi a maior variação negativa desde 2 de janeiro de 2023, quando o índice caiu 3,06%.

Nesta quinta, investidores continuaram a avaliar a nova alta de juros anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil (BC). O estado de saúde do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e dados internacionais também ficaram no radar.

Na véspera, o Copom decidiu aumentar o ritmo e elevar a taxa básica de juros (Selic) em 1 ponto percentual (p.p.), elevando-a de 11,25% para 12,25% ao ano. O colegiado também adotou um tom mais duro no comunicado divulgado após a decisão.

Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que o movimento é uma correção após o dólar cair e o Ibovespa subir na véspera, diante das notícias sobre o estado de saúde do presidente Lula.

Outro fator que justifica a rota dos mercados nesta quinta é a elevação da Selic. Com o juro básico mais alto — e sinalização de novos aumentos à frente —, é natural que parte dos investidores opte por títulos de renda fixa, em detrimento da bolsa de valores. Isso colabora com a queda do Ibovespa.

No cenário internacional, dados de inflação ao produtor e de pedidos de auxílio-desemprego dos Estados Unidos ficam sob os holofotes, bem como a nova decisão de juros do Banco Central Europeu (BCE).

 

Dólar

O dólar subiu 0,69%, cotado a R$ 6,0091. Na máxima do dia, foi a R$ 6,0476. Veja mais cotações.

 

Com o resultado, acumulou:

queda de 1,02% na semana

alta de 0,14% no mês;

avanço de 23,84% no ano.

Na véspera, a moeda norte-americana recuou 1,30%, cotada a R$ 5,9682.

 

Ibovespa

O Ibovespa caiu 2,74%, aos 126.042 pontos.

 

Com o resultado, acumulou:

avanço de 0,08% na semana

alta de 0,30% no mês;

recuo de 6,07% no ano.

Na véspera, o índice fechou em alta de 1,06%, aos 129.593 pontos.

O que está mexendo com os mercados?

“[O movimento dos mercados nesta quinta-feira foi], em grande parte, uma correção dos exageros ocorridos ontem”, afirma o economista Jason Vieira, do MoneYou, em referência à queda do dólar e à disparada do Ibovespa após notícias sobre estado de saúde do presidente Lula.

O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, destaca outro fator importante de reflexos nos mercados: a elevação da Selic, anunciada ontem.

“Os títulos de renda fixa concorrem com os investimentos em ações. Se a taxa de juros está tão elevada — e ficará ainda mais ao longo dos próximos meses —, é normal que alguns investidores optem por investir em títulos públicos, por exemplo”, diz.

Há ainda um movimento de queda nas ações de empresas ligadas ao varejo, explica o economista. “Nós sabemos que uma taxa de juros elevada penaliza mais alguns setores do que os outros, e isso inclui o comércio varejista.”

A nova decisão do Copom sobre os juros foi anunciada na véspera, após o fechamento dos mercados.

O comitê decidiu aumentar o ritmo e elevar a Selic em 1 p.p., na maior alta de juros do governo Lula e na maior escalada desde fevereiro de 2022, quando a elevação foi de 1,5 p.p..

No comunicado, o Copom adotou um tom mais duro do que o esperado pelo mercado, falando sobre um cenário “menos incerto e mais adverso” e indicando uma taxa de juros de 14,25% ao ano em 2025.

O BC sempre apresenta um balanço de riscos, que são os fatores que têm levado em conta para suas decisões de juros. A surpresa foi o reforço ao fato de que foram confirmadas as pioras nas expectativas.

No comunicado, indica ainda que seguimos com mais riscos de alta que de baixa de juros, o que explica não só a aceleração do aumento das taxas, como a repetição de novos aumentos a seguir.

 

Os riscos citados que piorariam as altas foram:

 

Uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado: ou seja, de que analistas continuem esperando que a dinâmica de preços persista acima da meta de inflação para os próximos anos.

Uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo: isto é, que os preços do setor de serviços, o principal da economia brasileira, continuem surpreendendo, porque os níveis de oferta e demanda estariam ficando cada vez mais próximos, causando um desequilíbrio da inflação.

Uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada: seria o caso em que o aumento da percepção de risco na economia faria a moeda brasileira perder ainda mais força, piorando a inflação pelo reajuste de preços na cadeia de produção.

O economista-chefe do Banco Master, Paulo Gala, destaca que a economia brasileira segue bastante aquecida, o que “dificulta muito” o trabalho do Banco Central.

“Ontem, o BC deu um choque nos juros. Hoje pela manhã o dólar apreciou bem, mas virou e começou a subir. Os juros longos tiveram leve queda, enquanto os curtos subiram muito. Os dados mostram que o BC brasileiro vai ter uma árdua luta pela frente”, diz.

Para o economista, já é possível projetar um crescimento de 4% no PIB este ano, com uma inflação encostando nos 5%. “O BC vai colocar os juros perto de 15%, e há uma pressão muito violenta do dólar”, destaca Gala, ao reforçar os desafios da autoridade monetária.

Dólar mais caro, PIB mais forte e mercado de trabalho aquecido são fatores que tendem a colaborar com a alta dos preços. Para conter a inflação, portanto, o principal recurso utilizado pelo BC é a elevação da Selic, a taxa básica de juros do país.

O mercado também seguiu atento ao estado de saúde do presidente Lula, que precisou passar por mais um procedimento nesta quinta para evitar um novo sangramento na cabeça. A intervenção aconteceu pela manhã e, segundo o médico responsável, foi “um sucesso”.

A técnica não é considerada uma cirurgia, mas um “procedimento endovascular (embolização de artéria meníngea média)”, e não vai influenciar na previsão de alta da UTI, que deve sair ainda nesta quinta. A intervenção faz parte do protocolo pós-cirúrgico.

Por fim, o quadro fiscal do país continua no radar, em meio ao receio de que a aprovação do novo pacote de cortes de gastos do governo federal possa enfrentar resistência no Congresso Nacional e diante da aprovação da regulamentação da reforma tributária pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.

No exterior, o foco fica com novos dados de inflação ao produtor nos EUA, após a divulgação dos preços ao consumidor na véspera. O indicador é uma das principais variáveis consideradas pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) para a condução de juros do país.

Dados de pedidos de auxílio-desemprego nos Estados Unidos também fica na mira dos investidores.

Na Europa, o Banco Central Europeu (BCE) reduziu as taxas de juros pela quarta vez este ano e manteve a porta aberta para um maior afrouxamento em 2025, conforme as preocupações com a inflação diminuíram.

O grande debate mudou para se a rapidez dos cortes será suficiente para apoiar uma economia estagnada que está ficando para trás de seus pares globais.

Prevendo que a inflação voltará à sua meta de 2% no início de 2025 e que o crescimento permanecerá lento, o BCE reduziu sua taxa de depósito de 3,25% para 3%, em linha com as expectativas.

“A maioria das medidas de inflação subjacente sugere que a inflação se estabelecerá em torno da meta de médio prazo de 2% do Conselho do BCE em uma base sustentada”, disse o BCE, removendo a promessa anterior de manter a política monetária “suficientemente restritiva”.

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