Meta da inflação: mudança após críticas de Lula ao BC divide opiniões de agentes do mercado
Meta da inflação: mudança após críticas de Lula ao BC divide opiniões de agentes do mercado
Economistas influentes se mostraram favoráveis a uma eventual mudança na meta da inflação brasileira. Para o presidente da República, mirar em uma inflação tão baixa impede a queda dos juros e atrapalha o crescimento do país.
Por André Catto e Isabela Bolzani, g1 16/02/2023 05h01 - Atualizado há 4 horas
Em evento
nesta quarta-feira (15), três economistas que são referência no mercado
financeiro se mostraram favoráveis a uma eventual mudança na meta da inflação
brasileira.
Rogério
Xavier, da SPX Capital, Luís Stuhlberger, da Verde Asset Management, e André
Jakurski, da gestora JGP, deram peso ao time de analistas que concordam que um
aumento da meta seria necessário para um avanço da economia brasileira.
Xavier
afirmou, por exemplo, que “a nossa meta está errada” e que ela é
“inalcançável”, em evento que contou com a presença do ministro da
Fazenda, Fernando Haddad (PT).
A tese é
defendida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que acendeu esse
debate em meio a um conjunto de críticas ao Banco Central do Brasil e ao
presidente da instituição, Roberto Campos Neto. As discussões estão centradas
justamente na taxa básica de juros, que está em 13,75% ao ano, patamar que o
governo considera muito alto. (Entenda aqui a briga).
O Banco Central é obrigado a colocar a inflação brasileira dentro do intervalo da meta, usando a taxa Selic para isso. Para Lula, mirar em uma inflação tão baixa impede a queda dos juros e atrapalha o crescimento do país. O presidente pede, então, que a meta seja mais alta e mais adequada à realidade brasileira.
Nesta
quinta, acontece a primeira reunião no novo governo do Conselho Monetário
Nacional (CMN), mas não está confirmada que será debatida a meta de inflação.
Nos últimos
dias, chefes de grandes gestoras de investimentos endossaram a tese de Lula,
que a meta central da inflação, fixada em 3,25% para 2023, seria baixa demais.
Não custa lembrar: a meta é considerada formalmente cumprida se oscilar entre
1,75% e 4,75%.
Até então,
porém, os agentes do mercado eram refratários às discussões sobre a elevação da
meta da inflação, definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). O g1, então,
perguntou a economistas o que mudou.
Por que
não se falava no assunto?
Para o
ex-presidente do BC Gustavo Loyola, apesar de nomes relevantes do mercado
financeiro se alinharem ao discurso de Lula, não significa que haja uma voz
única entre os agentes. Diretor-presidente da Tendências Consultoria, ele
afirma ser um dos economistas contrários à mudança.
“Continuo
insistindo que é um erro alterar a meta. Vai dar uma sinalização muito ruim.
Será mais difícil para o Banco Central conduzir a política monetária. Isso
porque a expectativa de inflação vai para cima, o que traz impactos negativos,
diz.
O
economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, afirma que o assunto já era
debatido pelo mercado, com posições favoráveis e contrárias. A diferença é que,
agora, o tema ganhou os holofotes por conta das declarações de Lula.
“Parece
que economistas e agentes do mercado financeiro sempre ficaram em silêncio em
relação às metas da inflação, e agora que o presidente deu destaque ao assunto
eles começaram a dar opinião. Mas não é bem assim. Essas conversas já ocorrem
internamente e em fóruns. Acontece que, quando vem de um chefe de Estado, a
repercussão é muito maior”, diz.
O
ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega segue a mesma linha. Para ele, são
convicções já construídas pelos agentes do mercado e, portanto, natural que
agora se manifestem sobre o tema após as declarações de Lula.
Alteração
da meta divide opiniões
Apesar de
considerar legítimo o debate, Maílson diz não ser o momento ideal para se
discutir o tema. “A mudança da meta nesse ambiente de turbulência, de
ataques ao Banco Central – enquanto é preciso definir um arcabouço fiscal – é a
medida errada no momento errado”, diz.
“O
aumento da meta para inflação deve alterar expectativas. Os agentes econômicos
vão migrar suas projeções rapidamente para a nova meta. Isso vai exigir que o
BC aumente a Selic, porque a taxa de juros vai ter que subir. É um efeito contrario.
Um tiro no pé”, afirma.
Para Gustavo Loyola, o sistema que compõe a meta de juros “funciona muito bem”, e o formato em prática tem dado resultado.
“É
melhor cuidar da questão fiscal, que está um caos. É preciso estruturar
reformas. Todos os dias você vê o governo anunciando aumento de gastos. Cada
dia uma notícia nova. Não se trata apenas da causa monetária”, afirma o
ex-presidente do BC.
Do lado
contrário, o economista Antonio Corrêa de Lacerda, conselheiro e ex-presidente
do Conselho Federal de Economia (Cofecon), considera a alteração uma medida
positiva. Para ele, o tema divide opiniões do mercado por
“desconhecimento” de teorias, das melhores práticas internacionais e
por “interesses”.
“A meta
atual é irrealista, considerando a situação atual de pressões de oferta. Mesmo
para países desenvolvidos, nossa meta seria apertada demais”, compara.
Lacerda
afirma que é preciso estudar as causas, o núcleo da inflação e estipular uma
meta “realizável”. Para ele, hoje o ideal seria algo próximo de 4%,
com margem de 2 pontos percentuais.
O economista
é signatário de um manifesto assinado por mais de 3,6 mil economistas contra a
alta da Selic. O documento diz que “a taxa de juros no Brasil tem sido
mantida exageradamente elevada pelo Banco Central e está hoje em níveis
inaceitáveis”.
Alex
Agostini, da Austin Rating, também considera o modelo atual inviável. Ele
defende, entretanto, a mudança estrutural no sistema de metas, e não apenas
redefinição da meta – o que exige tempo de aplicação.
Uma das
alterações sugeridas por Agostini é a mudança da meta anual (ano-calendário)
para uma também fixa, mas de longo prazo, como a dos Estados Unidos.
“Se
historicamente temos juros elevados, o problema está no sistema de metas. E,
considerando toda a estrutura macroeconômica, aliado ao ganho de produtividade,
de escala, então não poderíamos ter uma meta tão ambiciosa como nós
temos”, conclui.