JUROS ALTOS, CRÉDITO CARO E MARKETPLACES: OS CHOQUES QUE PRESSIONAM O VAREJO BRASILEIRO
Casas Bahia, Marabraz, Americanas, GPA e Marisa enfrentaram dificuldades nos últimos anos. Crédito caro aperta consumidores e empresas, enquanto marketplaces e concorrência internacional mudam a disputa e pressionam preços, margens e investimentos.
Por Janize Colaço, Micaela Santos, g1 — São Paulo
Casas Bahia, Marabraz, Americanas, GPA e Marisa estão entre as grandes empresas do varejo brasileiro que enfrentaram crises financeiras nos últimos anos, com impactos que vão de reestruturações e fechamento de lojas a processos de recuperação.
De móveis e eletrodomésticos a alimentos e roupas, os casos são diferentes, mas ajudam a mostrar uma pressão que atravessa o setor: o dinheiro ficou mais caro justamente quando a forma de vender e competir também mudou.
Juros elevados e crédito caro reduzem o espaço das famílias para parcelar compras e, ao mesmo tempo, encarecem as dívidas e o funcionamento das empresas.
Enquanto isso, marketplaces, comércio eletrônico e concorrência internacional aumentam a disputa por preços e pressionam as margens das empresas, além de exigir investimentos em tecnologia e logística.
Nesse cenário, ficam mais vulneráveis as empresas que geram pouco caixa com a própria operação, acumulam estoques, mantêm estruturas físicas caras ou têm dívidas difíceis de pagar.
O primeiro choque: o crédito caro chega ao consumidor
Quando a taxa básica de juros está alta, o custo do dinheiro também tende a subir. A Selic, que serve de referência para as demais taxas da economia, está em 14% ao ano. Isso contribui para encarecer o crédito para consumidores e empresas.
Na prática, os juros tornam as compras parceladas mais caras e podem levar o consumidor a adiar a aquisição de produtos de maior valor. Quanto maior o preço e mais longo o prazo de pagamento, maior tende a ser o custo final. Por isso, categorias como móveis e eletrodomésticos são especialmente sensíveis ao crédito.
O Relatório de Economia Bancária (REB), do Banco Central, mostra que as taxas de crédito no Brasil dificultam o parcelamento de compras por períodos mais longos.
O impacto é maior entre as famílias de menor renda, que enfrentam juros mais altos e, por isso, têm menos espaço para financiar bens de maior valor. Quando o consumidor adia uma compra, o efeito também chega ao varejista.
A loja vende menos e, se precisar oferecer condições de pagamento mais vantajosas para manter as vendas, pode demorar mais para receber ou ter custos para antecipar esse dinheiro.
Enquanto isso, despesas como salários, aluguel, fornecedores, impostos e juros continuam correndo.
Em outras palavras, o problema não é apenas a queda nas vendas. A situação se agrava quando as vendas deixam de gerar caixa suficiente para bancar as despesas do dia a dia.
Segundo Bruno Medeiros Durão, especialista em Direito Bancário e Tributário, a diferença está justamente aí.
“Muitas empresas olham apenas para o faturamento e esquecem que existe uma diferença enorme entre vender muito e gerar caixa.”
